terça-feira, 23 de março de 2010

Calabresa neles!

Personagem da semana: o Santo Daime!
Como já é de praxe as capas dos jornais pautam as conversas ao longo do dia. Informações travestidas de imparcialidade enfiadas goela abaixo. Questionamentos “quase” impostos. “Você acha que o daime é perigoso? Causou o crime? Deixa as pessoas malucas?” Polêmica: receita mágica que move a indústria da informação.
Um louco comete um crime... isso é novidade? Uma pessoa conhecida morre! Isso tem que render! Réu confesso, não deixou muita brecha para acusações hollywoodinescas. Culpa de alguma força misteriosa?! Proibir ritual centenário envolvendo droga alucinógena e ir contra minoria religiosa sempre vende jornal.

Mas, qual a diferença entre o louco munido de drogas e o louco munido de fé cega?

Pessoalmente, não sou a favor nem contra nenhuma religião.
Certa vez, uma amiga muito próxima passou por uma experiência sem volta: o câncer.
Na medida que a gravidade do tumor aumentava, sua esperança era potencialmente depositada numa igreja evangélica. A situação piorava na mesma proporção que seu vocabulário se encorpava com palavras recheadas de religiosidade. Ela passou a encontrar a felicidade no coral da igreja, onde escutava que tudo ia ficar bem... diferente do que os médicos pensavam. Não ignoro o quanto essa esperança é fundamental para quem sofre. Move montanhas.

Um dia, ela avisou da apresentação musical para amigos não religiosos e, sem combinar, aparecemos. A mãe dela, que também não seguia nenhuma religião, foi com a gente.
Foi lindo! Ela cantou como um anjo! Logo depois começou o culto. O pastor da vez era um senhor de aparência inusitada: muitos quilos a mais, botões estourando na blusa social esgarçada e quase nenhum dente na boca. Cordões e pulseiras grossas e douradas ostentando o peso da palavra que dizia tão enfaticamente.
Ele disse que cantava numa boate até que Jesus o salvou e curou sua filha doente. Eis que no meio do culto ele, ciente de que muitos ali não eram adeptos, manda todos fecharem os olhos e começa um discurso profético. Olhei a minha volta assustada, em meio a gritos de aleluia aleatórios e gemidos “espontâneos”. Pessoas se contorciam a minha volta gritando o nome de Jesus.

Eu, que sou adepta do “reza baixo, Jesus não é surdo”, vi meus olhos encontrarem os de uma outra amiga que pensa igual a mim. Não houve tempo para nenhuma reação, o pastor passou na frente de cada uma de nós com o olhar penetrante ordenando que fechássemos os olhos. Puxou uma das meninas, que era evangélica, mas não daquela igreja, e colocou a “santa” mão sob sua cabeça ao passo que as mulheres que gemiam ao longo do discurso se juntaram em uma roda em volta da garota. Ele olhou nossa cara de assustados e insinuou que todos precisavam passar por aquilo para encontrar a salvação. Foi minha dica para recolher minhas tralhinhas e partir antes que eu me estressasse.

Mais tarde, fiquei sabendo dos que agüentaram até o final, que no meio daquele show todo, o dito cujo apontou para a mãe da minha amiga e disse que a cura era certa! E que, para isso, ela (mãe) teria que freqüentar a igreja. Segundo o pastor, o que salvou a vida da filha dele foi a fé (dele! Não da filha!).

Agora me pergunto. Como que uma pessoa que está se vendo morrer e acredita em cada palavra dita na igreja recebe a notícia de que vai se curar se sua mãe e amigos se converterem????

O que acontece na mente de uma mãe quando ouve, da “fonte de verdade” da pessoa que mais ama, que ela só não vai se curar porque ela, mãe, não acredita naquilo??????

Até que ponto a fé cega destrói vidas? Até que ponto uma droga como o santo daime é responsável pelo crime do louco? Proibir o ritual é uma solução? Quantas pessoas desconhecidas morrem todos os dias pelo poder do discurso? Da religião, dos jornais. Discursos. Que matam...

10 comentários:

Graci disse...

Do Caralho!

Maria disse...

Maneiríssimo, Giu! Continua escrevendo!

Sarah Gil disse...

Eu concordo com QUASE tudo!

Existem muitos fanáticos que usam a fé alheia e a religião para se promoverem e esquecem que a vontade de Deus é diferente da nossa vontade.

Precisamos ter muito cuidado, mas também precisamos não perder a fé.

Independente de religião, crença, seita e até profissão, tem doido em qualquer lugar rsrs

Louise disse...

você é uma idiota, mas eu te amo... hehehe jornalista!

Bjooooo

Anônimo disse...

Na quinta passada fiquei chocada coma capa da revista "Veja", que tratou sobre o Daime...comparei com a matéria que saiu na "Época" sobre o mesmo tema...quem tiver a oportunidade faça!!! E concordo com quase tudo...gente maluca a gente encontra em qualquer esquina!!! E se o Daime for culpado, vou passar a dormir com a porta do meu quarto trancada...hauhuhuhauhu "piada interna"

Aline Oliveira disse...

hauhauhau muito bom! ri horrores com: "Eu, que sou adepta do 'reza baixo, Jesus não é surdo'", hauhuahhauha parabéns

Anônimo disse...

É muito bom ver como a cada dia seus textos ganham um estilo "Giulia"..... Acho que você realmente está à vontade no jornalismo...... Seja qual for o "tema".
Mil bjcas

Berenice disse...

É muito bom ver como a cada dia seus textos ganham um estilo "Giulia"..... Acho que você realmente está à vontade no jornalismo...... Seja qual for o "tema".
Mil bjcas

Berenice disse...

Um dia ainda acerto na tecnologia e envio uma vez só rsrsrsrrsrsrsrsrssrrsrssrrssr

Lívia Pinho disse...

"Equilíbrio vem do entendimento, humildade e tolerância. O mais elevado estado de equilíbrio é voar livre de tudo e, ainda assim, manter-se firmemente enraizado na realidade do mundo."

a diferença entre o remédio e o veneno é a dose.
discursos não são de todo ruins, cabe a nós saber interpretá-los e guardarmos o que for útil de alguma forma.