segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Conversa Fiada

“É um menino nu, que brotou do chão, perto do sinal, perdeu a luz pedindo um pão”

Terça feira pela manhã eu não tenho aula na faculdade; vou ao curso de inglês. Estou me preparando para fazer um exame de proficiência que certamente ajudará a abrir muitas portas para mim no futuro.
Na volta para casa, pelas ruas do bairro “zona sul” de Niterói, passei por um menino que me pediu alguma coisa. Confesso que não sei o que era. Aproveitei a oportunidade de estar com meus fones de ouvido, olhei para o outro lado – uma vitrine de sapatos – e passei direto.
Logo depois de passar por ele, me arrependi profundamente de tê-lo ignorado de forma tão veemente. Afinal de contas, não estava com pressa para nada. Estava indo para casa, para passar a tarde lendo, ou vendo um filme, ou um pouco dos dois, ou qualquer outra coisa.
O que ele estava me pedindo? Dinheiro eu não teria para dar, tinha apenas duas notas grandes. Mas será que talvez ele não quisesse apenas um copo de água de coco da barraquinha na esquina? Ou talvez tivesse fome. Ou quisesse atenção. Ou pelo menos ser notado. O que o torna indigno de ser visto?
Um pouco mais à frente, passei pela vitrine de uma loja de departamentos, ainda abarrotada de brinquedos pelo dia das crianças que mal havia terminado. Será que ele ganhou algum presente? Será que ganhará? Será que era isso que ele queria?
Me senti um lixo. Tive vontade de voltar, perguntar-lhe o que havia dito e pedir perdão pela minha indelicadeza. Mas não consegui. A vergonha de voltar foi maior do que a vergonha pelo que fiz. Esse tipo de atitude não condiz comigo. Não costumo tê-lo. Mas tive. E no caminho para casa vim pensando nisso incessantemente.
Passei por um ônibus, desses novos, com letreiros eletrônicos, que trazia, alternadamente ao seu destino, a frase: “CRIANÇAS: o futuro do Brasil”. Que futuro será esse? Sei que o meu, de uma forma ou de outra, já está garantido. Se não conseguir exercer a profissão para qual me preparo, há sempre a opção de fazer um concurso público. Mas e o futuro daquele menino? E o futuro das outras – muitas – “crianças invisíveis” que, como ele, há espalhadas por aí e que passam por nós a todo instante sem serem percebidas?
No documentário Ônibus 174, que conta a história de Sandro Dias do Nascimento, responsável pelo seqüestro de um ônibus em 2000, que resultou na morte de uma refém e na sua própria, um sociólogo fala uma coisa que me marcou muito: “Esse Sandro é um exemplo dos meninos invisíveis que, eventualmente, emergem e tomam a cena e nos confrontam com a sua violência, que é um grito desesperado, um grito impotente. (...) Nós convivemos, aprendemos a conviver tranquilamente com os ‘Sandros’, com as tragédias, com os filhos das tragédias, as extensões das tragédias. Isso se converteu em parte do nosso cotidiano. A grande luta desses meninos é contra a invisibilidade. Nós não somos ninguém e nada se alguém não nos olha, não reconhece nosso valor, não preza nossa existência, não diz a nós que nós temos algum valor, não devolve a nós a nossa imagem ungida de algum brilho, de alguma vitalidade, de algum reconhecimento. Esses meninos estão famintos de existência social, famintos de reconhecimento. (...) Há duas maneiras de se produzir a invisibilidade: esse menino é invisível porque nós não o vemos, nós negligenciamos a sua presença, nós o desdenhamos, ou porque projetamos sobre ele um estigma, uma caricatura, um preconceito.”
Não quero que pensem que sou marxista, socialista ou qualquer coisa que o valha. Não sou a favor da distribuição igual de renda, não acho que isso resolveria, nem acho justo. Muito pelo contrário, acho que posso dizer – com uma pitada de exagero – que sou a personificação do capitalismo. Mas, sei lá, acho que tenho a “compaixão evolutiva de um homem grande por tudo que é pequeno”, parafraseando Gary Shteyngart, autor de um livro fantástico chamado Absurdistão.
Desde nova eu costumava tomar parte em caravanas junto ao grupo religioso que freqüentava e saía às ruas para distribuir comida aos seus moradores. Depois de ser assaltada pela segunda vez, há quase um ano, e perder um celular que havia acabado de comprar em dez módicas parcelas no cartão de crédito da minha querida mamãe, parei de fazê-lo. Para mim, ajudar as crianças de hoje seria contribuir para a criminalidade de amanhã; alimentar o jovem que assaltaria o meu filho, os nossos filhos, assim como ontem alguém havia, de alguma forma, alimentado aquele que me causou tamanha perda.
Hoje não penso mais dessa forma. Aliás, sinto um pouco de vergonha por ter entrado na onda contemporânea de supervalorizar coisas tão supérfluas como um celular
Penso que talvez não haja nada que se possa fazer para evitar que as crianças de hoje, que vivem nas ruas e favelas e que também são o futuro do Brasil, tornem-se os criminosos de amanhã. No fundo, no fundo, concordo em parte com a teoria do "bom selvagem", de Rousseau, que defende a ideia de que todo homem nasce bom e é corrompido pelo meio em que vive. Digo em parte porque acho que toda pessoa nasce com traços específicos de personalidade que contribuirão na formação de sua índole. Se forem traços ruins, talvez a educação não possa coibi-los; se forem bons, talvez os meios não os corrompam. Porém, o meio em que cada criança vive, influenciará no adulto que ela será amanhã. Seja para o bem ou para o mal.
No filme Cidade de Deus, há dois exemplos. O personagem principal, Buscapé, tem, dentro de casa, a convivência com o irmão bandido e, fora dela, com traficantes e criminosos. Mas para ele – de boa índole e recebendo boa educação – esses sempre foram os exemplos a não serem seguidos. Por outro lado, o personagem de Darlan Cunha, por mais coadjuvante que seja, tem uma fala fenomenal. Em certo momento o personagem Mané Galinha, interpretado por Seu Jorge, lhe pergunta se ele não tem nada na cabeça para estar metido no tráfico, já que não passa de um moleque, ao que recebe a resposta: “Eu fumo, eu cheiro. Já matei e já roubei. Sou sujeito homem.” Para este personagem, os exemplos do meio em que cresceu serviram como inspiração.
Porém, como disse o personagem que representa o Dr. Dráuzio Varella, em Carandiru, a sociedade tem seus juízes, não me cabe julgar. Há duas escolhas: esquecer ou voltar.
Já há algum tempo que penso em tomar a segunda, mas sei que tão cedo não o farei. O egoísmo de querer fazer outras coisas que beneficiarão somente a mim não me permite. Mas escrevo na esperança de que alguém seja tocado por essas palavras porcamente reunidas e decida tomar alguma atitude. Uma vez eu li em algum lugar (minha memória insiste em não registrar sequer o que considero importante) uma frase que dizia algo do tipo: os menores atos são os mais significativos.
Demagogia? Talvez.
Mas é melhor do que nada.


Música da semana --> Baião de rua – Chicas (a gravação original é do Fagner, mas a delas é mais legal)

3 comentários:

Felipe disse...

Infelizmente insistimos em não fazer nada...
Quem sabe a mudança não deve começar por nós?

que tal?
=*

May Guimarães disse...

Bom, na semana passada estava saindo do meu trabalho e chegando ao ponto de onibus no momento em que acendi um cigarro um menino de rua me abordou e falou"tia, me arruma um desses aí" eu fiquei parada não tive reação e perguntei novamente o que ele havia dito...ai entendi a minha reação foi dar o que acbara de acender...mas depois fiquei me perguntando pq q eu fiz isso, esse menino não tem mais de onze anos...acho q foi automático, talvez se eu negasse ele poderia me assaltar e eu tinha coisas importantes a perder...não sei...que depois q me dei conta da idade do guri, me bateu um peso na conciensciencia...

Felipe disse...

Mayara corruptora de menores.. Eu sempre nego. Criança não pode fumar!