segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Conversa Fiada

"Família! Família! Cachorro, gato, galinha..." - Parte 1


Semana passada estive em Cataguases por ocasião do aniversário de minha avó, que estava passando uns dias na casa da minha tia. Para quem não sabe, Cataguases é uma cidade mineira que, de tão grande, não existe no mapa. Imagine uma cidade típica de interior, menor do que a Rocinha, cujas principais atrações são as praças e a avenida - que é como uma versão do Saco de São Francisco (para os que, assim como eu, moram em Niterói) - ei-la.
Brincadeiras à parte, sempre fui muito bem recebida na cidade aonde vou desde antes de me entender por gente. Aliás, desde antes de entender qualquer coisa. As pessoas são muito hospitaleiras e recepcionam a todos com um sorriso no rosto e uma fala mansa, carregadíssima do mais típico sotaque de Minas.
Depois que minha prima veio estudar no Rio, minha tia se mudou algumas vezes. No apartamento onde reside agora eu só havia ido uma vez, mas foi suficiente para notar, na esquina em frente, uma casa rosa, antiga, toda gradeada, onde moram... gatos! Muitos gatos, apenas gatos, trinta e nove gatos!
Eu, que adoro animais, fiquei felicíssima de ver que, nesta cidade tão pequena, havia alguém que se importasse tanto com eles a ponto de dar-lhes um teto, comida, água, carinho e atenção. Mais feliz ainda fiquei quando soube que este alguém, a Fátima - Fatinha para os íntimos -, estava apenas a um lance de escadas de mim.
Quando a perguntei se poderíamos bater um papo, ela prontamente me convidou a conhecer a casa. Recomendou apenas que eu usasse uma roupa mais velha, pois alguns gatos gostam de pedir carinho puxando nossa roupa com as unhas. Como sempre fui mais de cachorros, nunca soube que gatos pudessem ser tão carinhosos.
Lá fui eu com as únicas roupas velhas que consegui: minha blusa de pijama, uma calça jeans antiga da minha avó e um chinelo trinta e seis que me deixava o calcanhar descalço. Quando chegamos no portão, havia, na rua, cinco cães famintos, esperando sua "dona", que todos os dias, no mesmo horário, dá-lhes de comer e beber e, mais importante ainda, dá-lhes carinho, atenção e um nome. Só não lhes oferece casa por falta de espaço, mas há planos para o futuro.
Ela me apresenta todos. A Clarinha, a Duquesa, o Rex, o Branco e a Sassá. Todos castrados no veterinário a pedido e às custas dela, menos a Duquesa, que é nova no pedaço, mas já sabe até dar a patinha. Ela é uma graça. Naquela quarta-feira, a Magrela e a Pretinha não estavam lá, mas também são cativas da esquina da casa dos gatos. A Fátima me pede para ir devagar com os cachorros, pois não sabe como reagirão à minha presença, mas eles logo me aceitam, fazem festa e recebem meu carinho. Acho que os animais reconhecem quem lhes quer bem.
Quando entramos na casa, ela me diz que cada um dos gatos tem uma história e, aos poucos, durante nossa conversa fiada, ela vai me contando cada uma, com o carinho de uma mãe. "Aqui eu tenho os bravos, os ariscos e os mansos. Agora, bravinhos até que são poucos. Cada um tem uma historinha de vida", diz.
A Docinho, a Linda e a Maysa tinham dono, mas foram abandonadas na virada do ano. Na ocasião, a Docinho estava grávida. A Nina, que chegou na casa há pouco tempo, ela "resgatou" de cima de uma árvore. A Brigite foi jogada dentro da casa, não se sabe por quem. A Picachu é velhinha e dócil e por isso, coitada, às vezes leva uns "tapinhas" dos roomates. O Zezinho adora perfume, não à toa, me puxava o braço a toda hora para cheirar e lamber. Tem a Polyana - que é irmã da Brigite -, a Bianca - que teve problemas durante a cirurgia de castração e, desde então, ficou mal-humorada -, o João - que adora um carinho e ficou se pendurando na janela para chamar atenção -, a Pipoca - sua preferida, filha da Bianca - e muitos outros. Muitos mesmo.
Enquanto ela me mostrava a casa, perguntei de onde veio todo esse carinho com os bichos.
- Tudo começou, né, com a minha mãe. A minha mãe morava aqui nessa casa e tinha uma gata que chamava Xulin. E minha mãe tinha loucura com a gata. A gata viveu com ela dez anos e, quando minha mãe morreu, né, ela pediu para eu vir para cá cuidar da gata. Aí eu vim, cuidei da Xulin e daí uns três anos a gata morreu. Depois disso foram aparecendo 1, 2, 3, agora eu tô com trinta e nove! Todos são de rua, não tem nenhum comprado. - ela me conta.
A casa tem cinco cômodos, com poltronas e uma cama, que eram da mãe dela, e um sofá, comprado de segunda mão, que hoje está, assim como as poltronas, esburacado e arranhado pelas ferinhas.
Um dos quartos fica sempre fechado. Quando entramos, descobri o motivo: dois cachorros! O Sansão e a Francisquinha. O primeiro esbanja felicidade e nos recebe aos pulos, fazendo uma farra digna do mais animado folião carioca. A segunda é mais reservada. Olha um pouco desconfiada a princípio, mas depois aceita um afago.
A Fátima me diz que eles também foram tirados da rua e que ela gostaria de ter mais espaço para poder acolher também a turminha da esquina. Ela me conta que o Sansão tinha dona, mas quando se mudou, soltou ele em outro bairro. A Francisquinha foi uma das primeiras a figurar na esquina da "casa rosada" - essa que, diferentemente da argentina, cumpre com louvor o papel social a que se propõe. Os dois se dão super bem, dormem até juntos.
O Juarez, marido da Fátima, leva os cachorros para passear toda noite. Quando ele entra no quarto é uma festa só. Até a Francisquinha, que não largou o pote de ração durante toda minha permanência em seu território, se animou e foi, aos pulos, receber o dono querido. Mas antes fez um carinho no Jonathan, um dos gatos novos na casa, que adora os cachorros. Ele entrou no quarto e foi direto dar um beijo de esquimó na Francisquinha. Quisera eu ter fotografado a cena para dividir com vocês.
Quando o Juarez saiu com os cachorros, a Duquesa e o Rex foram atrás, como se guiados também por uma coleira. Invisível. Mas que certamente existia ali, ligando o coração do homem ao dos animais.

Continua...


--> Música da semana: Família - Titãs

6 comentários:

Felipe disse...

Adorei...
imagino que cena linda!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Luka disse...

Cataguases tem sua importância vai..

Lívia Pinho disse...

claro que tem, adoro Cataguases!
só quis fazer uma graça.. =P

Giulia Gomes disse...

minha futura família será assim!!
hahahhaah

Sonia disse...

E a continuação????
2ª feira, dia 05, esqueceu???

Lívia Pinho disse...

não postei a continuação no dia 05, mas sim no dia 12.